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    Qualquer mulher é ser humano? Por Mirella D´arc de Melo Cahú Arcoverde, juíza do Trabalho da 13ª Região

    19/07/2010

     
    E pela passagem do Dia Internacional da Mulher, me veio à necessidade de escrever algumas palavras sobre ao papel da mulher na sociedade. Tomada a decisão a respeito do tema comecei a procurar uma forma de traçar um paralelo com a abordagem dentro da perspectiva dos Direitos Humanos. Comecei a imaginar passos que poderiam me levar a uma crônica interessante, e terminei por chegar à seguinte indagação, elementar, mas indagação, a mulher é um ser humano?

    A resposta parece até obvia, diriam, “Claro que é!”. Mas ouso novamente indagar, será que é claro que a mulher é um ser humano? Do mesmo tipo de humano que é o homem?

    Até algumas décadas passadas, não saberia dizer ao certo que tipo de pessoa era a mulher. E, ainda, se era pessoa. Era do tipo que tinha obrigação de ter boa aparência, ser do tipo fértil, cuidar das crianças, cuidar da alimentação e da organização do lar. Do lar do ser humano homem. Que mesmo sendo humano, não lhe competia esses afazeres, a ele cabia apenas sustentar economicamente o lar. Quando a mulher se propunha a realizar qualquer atividade que ultrapassasse esses encargos, diriam, “é puro capricho de uma mulher moderninha”. Se afeta às artes, tudo bem, mas desde que a participação nas aulas lhe fosse autorizada pelo pai ou marido e desde que sua arte apenas seja exposta nos lares de boa família.

    E pensando ainda nessa forma antiga de organização da família, me veio à mente a imagem dos lares antigos, e nesse exercício de viagem no tempo me apareceu, dentro das casas diversos tipos de mulheres. Sim, sim, diversos tipos. Tinha a esposa, dona da casa, que até tinha uma boa aparência, era fértil e por isso dera luz a três filhos, dos quais cuidava com carinho, amor e disciplina, organizando a alimentação e a limpeza do lar. Mas sempre que ela comandava essa organização se dirigia a outro tipo de mulher. Lá, sempre nos bastidores da casa, lá no fundo, seja cozinhando, seja limpando os móveis, varrendo a casa, lavando roupas, um suposto outro tipo de bicho mulher me aparecia. Bicho mulher, que também tinha que ter boa aparência, tinha que ser fértil, cuidar das crianças, da alimentação e da organização da casa, da sua casa. Mas também da dos outros. Era a mulher do tipo pessoa trabalhadora doméstica.

    Aquela trabalhadora doméstica também era mulher, mas nem sempre assim a enxergavam porque era pobre. Nem sempre assim a enxergavam, porque era negra.

    - Mulher não pode trabalhar! Diriam os homens da época.

    E eu acrescentaria, salvo mulher, pobre e negra.

    Não entendo como nos acostumamos com uma abordagem histórica que não corresponde necessariamente a nossa realidade. Tínhamos sim, sempre tivemos mulheres que trabalhavam, podiam até não receber nada ou quase em nada em troca do trabalho ofertado. Podiam trabalhar em troca de um teto apenas, mas trabalhavam... As donas de casa sempre trabalharam. As mulheres que trabalhavam como domésticas, as lavadeiras, cozinheiras, costureiras, bordadeiras, as feirantes... Toda mulher, enquanto ser humano que é, precisa viver, e para subsistir precisa utilizar a única coisa que resta ao ser humano, que não possui o capital para destinar ao mercado, isto é, dispor da sua força de trabalho.

    E convido os leitores a uma indagação: essas mulheres fizeram a sociedade entender o avanço do movimento de libertação feminina? Essas mulheres participavam de passeatas ou sofreram ataques a sua integridade física nas ruas lutando pela igualdade de condições? Essas mulheres conquistaram a existência de um dia internacional destinado à compreensão dos seus direitos na sociedade? Não, infelizmente não.

    Esse tipo pessoa mulher silenciosa, dos bastidores do lar, pobres e negras ainda fazem parte do nosso cotidiano sem sequer ter garantida a sua valorização enquanto profissionais. Silenciosas, não queimaram sutiãs em praça pública, lavaram outros tantos que não os seus. Não mobilizaram protestos de mulheres, mas cuidavam dos filhos das que protestavam publicamente. Deixavam em harmonia toda uma estrutura de lar para as ditas “mulheres moderninhas” conquistarem seu espaço, sem sequer serem lembradas como parte de um processo importante de conquista histórica.

    Podemos dizer que essa mulher, a mulher pobre e negra, mais do que qualquer outra, tinha sim tolhidos outros direitos, como o direito de se exprimir na sociedade. Será que não são mulheres essas também? Será que são do tipo mulher, mas não tipo humano?

    Quando falamos em direitos das mulheres lembramo-nos dessas profissionais? O que mudou no ambiente de trabalho dessas mulheres entre a época a qual nos transportamos e os dias atuais?

    Poucas mudanças no padrão de vida. Pouco avanço para tantos anos de luta e de trabalho. Poucas vezes enxergada como ser humano, ainda nos dias de hoje. É por isso que dedico essa crônica às mulheres, do tipo de boa aparência ou não, fértil ou não, que possui filhos ou não, que cuida da sua casa e da alimentação ou não, da sua, mas mais especialmente às mulheres que cuidam das casas dos outros. Na esperança de que sejam vistas como seres humanos que precisam se exprimir na sociedade, que precisam ter voz para dizer quem são, dizer abertamente e com firmeza “sou mulher, ser humano e do tipo trabalhadora doméstica”.

    Feliz dia de luta a todas as mulheres trabalhadoras, ou não.

     

    Mirella D´arc de Melo Cahú Arcoverde
    Juíza do Trabalho Substituta, do tipo pessoa, mulher e trabalhadora, também.



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